"Urge varrer a complacência"

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Não é de hoje que tenho dificuldade para entender a permissividade de clubes e torcedores em relação aos jogadores de futebol, não exigindo deles um comportamento de homem e de atleta profissional. Já seria de se estranhar tal postura com os craques, os caras que carregam o time nas costas, mas não. Essa paciência (?) também vale para o boleiro que acabou de chegar sob o miserável status de aposta: "É, tá gordo, mas vamos esperar o rendimento em campo".
Rapidamente chego a Uelliton, dispensado pelo Avaí por deficiência técnica, digamos assim. Foi apresentado em janeiro, acima do peso, prometeu entrar em forma em 10 dias, mas foi embora com o shape da chegada. William, recém-contratado nas mesmas condições físicas, foi adotado e protegido pela maioria dos torcedores avaianos, não emagreceu, sofreu lesão e deve voltar em algumas semanas daquele jeito: "É, tá gordo, mas vamos esperar o rendimento em campo". Até dezembro?
Ontem me deparei com um artigo do sociólogo Florestan Fernandes (falecido em 1995), publicado na Folha de S. Paulo, onde afirma categoricamente que "No Brasil, nada conduz à loucura como o futebol". O pensador continua a linha de raciocínio analisando essa relação emocionalmente profana entre os torcedores e os jogadores que envergam os mantos de seus times do coração.
Tal qual Florestan, acredito que a quebra da rotina da miséria e da ignorância proporcionada pelos artistas da bola, continuará dando o tom das cobranças profissionais que não lhes são dirigidas. Os cartolas, a torcida, a imprensa, certamente todos esses espectadores tenderão a acreditar pacificamente que a garra e o jogo de cintura resolvem a parada e justificam o amadorismo.
Mas o sociólogo alerta: "Nem sempre! Urge varrer a complacência do futebol (...)".

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